Cavaco Silva foi eleito com 50,6% dos votos expressos. Em democracia, por um voto se ganha e por um voto se perde, pelo que só há que aceitar os resultados e a inevitabilidade.
Mas o resultado de Cavaco mostra uma coisa muito mais importante: que, ao contrário do que muitos pensaram e se resignaram antecipadamente, Cavaco não era um vencedor antecipado e folgado destas eleições. Durante quase cinco anos os jornais apresentaram-nos um Cavaco "futuro Presidente", quando ainda ninguém, nem o próprio, era candidato. Quase todas as semanas apareciam as "sondagens" em que os intervenientes eram Cavaco e outros que os jornais achavam que deviam aparecer (e que depois nem sequer se candidataram), em que Cavaco vencia sempre folgadamente à primeira volta, mas se por um acaso do destino houvesse segunda volta, a vitória era ainda mais expressiva. Quanto ao próprio, nada dizia, e quando escrevia, era só sobre o único tema em que tem opinião, as finanças públicas. Aliás, ainda hoje, passada a pré-campanha, a campanha e as eleições, ainda não se sabe o que o agora Presidente eleito pensa sobre questões tão secundárias como a política internacional e o papel de Portugal, sobre a política comunitária, sobre a imigração, etc etc.
Quanto à esquerda (às forças políticas que têm por obrigação definir estratégias para o futuro, leia-se o PS, principalmente), enquanto lentamente Cavaco e os media construiam a imagem de candidato vencedor, assobiava para o ar. E depois veio a trapalhada da candidatura de Mário Soares. Não está em causa a pessoa do candidato, o seu papel na luta contra a ditadura, na construção da democracia, no assumir do desafio europeu. Também é verdade que entre os candidatos era o único que tinha uma visão cosmopolita e não paroquial e uma opinião clara e expressa sobre as grandes questões e desafios que se colocam ao país, à Europa e à comunidade internacional. Mas era preciso, para além desses atributos, que fosse uma personalidade aceite pelos eleitores, e aqui entraram factores que merecem um estudo mais aprofundado, porque era nítida a rejeição de largas fatias da população. Talvez não pelas melhores razões, talvez por factores menores (mas largamente empolados pelos media) como a idade e o facto de já ter desempenhado todos os cargos possíveis e imaginários na república, talvez por ter dito um ano antes que bastava de política activa e depois, dando o dito por não dito, se ter candidatado. Seja pelo que for, viu-se cedo que não era candidato para estas eleições.
E não faz nenhum sentido atirar as culpas para Manuel Alegre: na minha opinião, Alegre (para além de, certamente, ter captado alguns votos que iriam a contragosto para Soares) adicionou votos que de outra forma se perderiam, assim aumentando as possibilidades de Cavaco ganhar à primeira volta, e por uma margem mais significativa. Mas também é claro que não seria Alegre o candidato para derrotar Cavaco, pois se fosse apoiado pelo PS o seu discurso seria necessariamente diferente, e muitos dos que nele votaram já não o fariam.
E agora, em vez de se lamentarem e de lavarem a roupa suja, já começaram a pensar para daqui a 5 anos, no mínimo para preparar as de aqui a 10 anos?